BTT: Santiago da Cruz – Santiago de Compostela

Posted on August 9, 2009 by

A vontade de fazer o Caminho Português até Santiago de Compostela, surgiu pela aventura e por considerar Santiago uma das minhas cidades preferidas. A preparação ocorreu com dois meses de antecedência. Coloquei o físico em forma e planeie da melhor forma a data de saída e as etapas que eu e o restante grupo devíamos fazer.

O grupo foi constituído por quatro elementos: Edgar Costa (Vila Nova de Famalicão), Batista Mesquita (Oeiras), Tiago Campos (Vila do Conde) e João Gomes (Póvoa de Varzim).

Destinamos que o dia de arranque seria Domingo, 26 de Julho, e escolhemos esta data por ser depois da Festa de Santiago que decorre anualmente na capital da Galega. Fugindo, desta forma, à afluência de gente na cidade e nos caminhos de peregrinação.

Decidimos também que o arranque seria feito de Santiago da Cruz, uma localidade do concelho de Vila Nova de Famalicão.

Depois de uma noite mal dormida, provavelmente devido à ansiedade, fomos tomar o pequeno-almoço com o Presidente da Junta de Freguesia de Santiago da Cruz, que apoiou esta aventura que ligou os dois Santiagos.

Fizemos o primeiro carimbo na Credencial e colocamos as bandeiras de Santiago da Cruz penduradas nas bicicletas, mochilas ou alforges.
O arranque foi feito às 9h da manhã em direcção a Braga e fomos acompanhados por dois colegas de BTT cá de Famalicão, que fizeram connosco os primeiros 15 quilómetros totalmente em estrada. Chegados à Sé de Braga, fizemos o segundo carimbo e registamos uma foto para o álbum.

Seguimos em direcção a Prado.

Embora existam comentários que o caminho está mal marcado em Braga, não sentimos qualquer dificuldade em sair da cidade em direcção ao meio menos urbano. Percalço tivemos quando um grupo de BTTistas nos indicou que o caminho que estávamos a seguir não era o original mas sim uma alternativa ao caminho principal. Aceitamos a sugestão e seguimos atrás deles até ao ponto inicial do original. (Fica aqui a referência e o nosso obrigado).

Pelo caminho até Ponte Lima fizemos uma pausa para reforço e outra para pedir água fresca numa aldeia bem típica do interior do Minho.

O objectivo seria chegar a Ponte Lima e almoçar, mas o encontro de pessoas conhecidas de um dos aventureiros fez com que a nossa paragem se antecipasse uns quilómetros antes de Ponte Lima. Aceitamos com satisfação o almoço oferecido [fantástico leitão], o mergulho na piscina e todas as saborosas sobremesas que estavam na mesa.

O resultado desta variadíssima ementa aumentou a nossa preguiça para pedalar e quase três horas depois decidimos que o melhor era fazer-nos à estrada antes que não resistíssemos ao digestivo [Whisky] que nos estavam a oferecer.

A passagem por Ponte de Lima foi como um foguete, paragem para foto e dois minutos para ver a corrida dos galgos. Corrida tínhamos nós pela frente até chegar à Labruja.

A famosa Labruja

Muito tínhamos consultado sobre a Labruja. “É a subir”, “Só há duas formas de subir: ao lado dela ou com ela às costas”, “É impossível pedalar pela Labruja”.

Não se sente a Labruja. A serra aparece assim do nada, como uma tempestade ciclónica. E assim aconteceu. O Batista Mesquita foi o que se manteve mais tempo em cima da bicicleta. Os 20 quilos que eu tinha na bicicleta foram suportados pelos meus braços, o travão da frente foi o melhor apoio para nas paragens a bicicleta não cair para trás. A Labruja é severamente pior daquilo que tínhamos lido, é soberbamente mais inclinada que nas fotos que visualizamos. É maior calvário de todo este caminho que fizemos.

A cruz dos franceses é sem dúvida um bom local para paragem

O Batista olhava-nos de lado a pensar “mas estes gajos já querem parar outra vez?”. Uma foto para a recordação e siga serra acima que ainda temos muito que andar até Valença.

Depois da serra da Labruja o cansaço começou a fazer-se sentir

Estava exausto e com algumas cãibras que me foram atormentando os músculos até à chegada. A poucos quilómetros de Valença o João sentiu os problemas do furo lento que tinha e tivemos de parar novamente.

Chegamos a Valença perto das 21h, a noite chegaria rapidamente e nós não conseguimos falar com ninguém responsável do Albergue. Sem ter nenhuma alternativa, entramos. Saudamos alguns dos peregrinos que estavam no seu interior, grande parte deles de Espanha e outros países da Europa.

Nas normas do albergue lemos que fecha as 22h e que as luzes se apagam às 23h. Fomos rápido procurar um sítio para jantar. Alimentamo-nos com mais hidratos de carbono que o habitual, umas cervejas e cama que o corpo precisa de descanso.

Dia 2

Como guardamos as bicicletas no quartel dos Bombeiros de Valença [o nosso obrigado] não tínhamos a necessidade de acordar antes das 7h da manha. O quartel abre as 8h, por isso foi arrumar o beliche e tomar um pequeno-almoço digno de campeões. O Tiago como vinha sendo habitual comeu como um cavalo.

Recolhemos as bicicletas e demoramos uns 40 minutos a consertar o furo na bicicleta do João. O arranque de Valença em direcção a Tui foi tardio e feito já perto das 9 da manha.

Depois de uns “Viva La España” cantados em bom som pelo João estávamos no país vizinho e o João no chão. Não deve o solo de nuestros hermanos ter gostado da música que cantava e atiro-o ao chão mesmo ao lado da placa que anuncia terras espanholas.

Procuramos uma bomba de gasolina para encher um pneu e o Batista rapidamente encontrou uma loja de bicicletas na mesma rua para comprar óleo.

O João por sua vez aproveitou e pediu para encher a suspensão integral da bicicleta para não andar feito um kanguru aos saltinhos.

A partir de Tui aceleramos o ritmo, passamos por diversos peregrinos que tinham abandonado o albergue mais cedo e ultrapassamos rapidamente a zona industrial de Porriño.

Chegados a esta localidade perdemos o Tiago de vista, alguns contactos e ele informou-nos que ia continuar a pedalar. Abastecemo-nos de alimentos num supermercado local e alguns quilómetros depois paramos junto ao albergue de Mos para almoçar.

Do Tiago pouco sabíamos, estranhávamos a sua altíssima potência para a fuga ao pelotão. Estaria dopado? Recolhemos uma foto em Redondela sem o Tiago e continuamos a seguir o trilho do GPS do Batista, ignoramos o aviso que existia para irmos à volta, cruzamos este excelente riacho de agua gelada. Hora do refresco e da fruta fresca que compramos em Porriño.

“O Tiago ligou, disse que está numa marisqueira logo a seguir a Arcade”, este nosso super guerreiro conseguiu almoçar durante uma hora e mesmo assim não o apanhamos. Já haviam apostas: “ele apanhou boleia de uma carrinha ou outro veículo”. Só uns dois quilómetros antes de Pontevedra é que o encontramos, estava com a super Lapierre estacionada numa esplanada de um café, trocamos umas certas impressões com postura que teve em pedalar cinco horas sozinho e seguimos para o centro da cidade.

No centro de Pontevedra fizemos uma paragem obrigatória com um furo meu. Em menos de cinco minutos o mestre Batista reparou o problema e seguimos. Queríamos chegar o mais perto possível de Santiago.

Chegamos ao albergue em Briallos bastante cedo. Estava cheio e informaram-nos que teríamos de dormir no chão. Fizemo-nos à estrada. Ainda tínhamos alguns quilómetros para fazer até Caldas de Reis – o nosso destino final deste segundo dia.

Ao cruzar a estrada N505 decidi atrair a malta para irmos ver as cascatas do Rio Barosa, aceitaram o pedido e pedalamos menos de 1000 metros fora do caminho. Paramos por uns minutos, capturamos umas fotos e regressamos à rota.

Caldas de Reis estava cada vez mais perto

À chegada procuramos o convento de Freiras que nos tinham indicado em Briallos, a irmã com quem falamos indicou-nos um local para dormir por 15 euros. Achamos caro e decidimos procurar um Hotel. Ficamos no Sena, em quarto duplo por pouco menos de 40 euros. Guardamos as bicicletas na garagem, onde ficaram seguras e pela primeira vez tínhamos toalhas secas e um quarto com televisão.

Fomos depois colocar as pernas nas termas locais e de seguida à O Muiño, a taberna mais famosa da localidade.

Dia 3

Para este último dia, eu decidi, não continuar de Santiago de Compostela para Finisterra como inicialmente estava previsto. Desta forma, partimos com tempo, tomamos o pequeno-almoço no Hotel e seguimos como o caracol. Tínhamos pouco menos de 40 quilómetros para fazer e esse facto fez-nos ir devagar. Estavam reservados os melhores trilhos que fizemos durante todo o caminho. Não recordamos quantos quilómetros foram, mas de Cruceiro até Valga gozamos uns excelentes trilhos – sombrios, frescos e cheios de vegetação.

Mais um pouco de ciclo turismo, mais um furo e começamos a chegar próximo da área urbana de Santiago. Aqui separamo-nos e pedalamos pelo alcatrão, sempre a subir e saudar os peregrinos que iam a pé pelo passeio. “Buen camino, peregrino!” e “Un poquito más y llegarás a Santiago”.

Foram estas as nossas últimas palavras no último esforço que fizemos nesta viagem.

A chegada à famosa catedral foi feita com cavalos do João e com o espírito de missão cumprida. Recebemos a Compostela. Almoçamos e convencemos o Batista a não voltar de bicicleta para Portugal. O resto da tarde foi passado em amena cavaqueira sobre bicicletas, pneus, câmaras-de-ar e algumas lições de mecânica que o Batista partilhou connosco.

Três dias, 216 quilómetros, 3800 metros de acumulado e muitas histórias partilhadas.

Mais fotos desta aventura

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Comments (9)

 

  1. Joel Patrão says:

    É sempre bom rever o Caminho por parte de outros. :) Ao ler esta foto-reportagem fez-me lembrar os 3 dias do ano passado em direcção a Santiago. Se bem que o ponto de partida foi diferente :) (Esposende – Rates – Barcelos – Ponte de Lima…. até Compostela).

    Por isso deixo aqui saudações peregrinas e que o espírito de Santiago se continue vivo…

    Ultreia

  2. Edgar Costa says:

    Joel obrigado pelo comentário. Efectivamente o espírito do caminho de Santiago continua vivo e em excelente forma.

    Já me falaram de um caminho pela costa portuguesa: Esposende, Viana, Caminha etc. Ficará para uma próxima.

    Cumps

  3. kitty says:

    tinha de comentar porque voces sao mesmo os maiores..
    fico contente por saber que ajudei na tua “preparação” fisica e psicologica…LOL..ok, talvez te tenha tentado com algumas coisinhas más mas isso sao outras histórias..
    ah, e parabens pela foto reportagem que ta muito interessante e sobretudo cativante (sim, li até ao fim :D )
    beijo***

  4. Ricardo says:

    Ai gandas naturas lol. Valeu a força e o sacrifício pela longa caminhada e ainda nos brindam com essas fotografias fabulosas.
    Parabéns a todos.

  5. tete says:

    mano tiago foste muito valente conseguiste na vida fazer este sacrificio ,virao outros que para ti nao serao nada.
    gostei muito das fotos e do que escreverao !!!!!!
    um beijo da mana e de toda a familia!!!!

  6. Bastinni says:

    Boas,
    Apos ler esta excelente foto-reportagem, ate dá vontade de no futuro participar nestas aventuras BTTistas.

    Quem sabe…

    Os meus parabens aos participantes, fico contente por terem conseguido chegar ao fim.

    Abracci!!!!

  7. Móveis says:

    Parabéns pelo post, é muito útil mesmo!

  8. Carlos Barbeitos says:

    Caros que boa experiencia, espero com uns amigos de Lisboa fazer este ano Monção– Santiago.
    Obrigado pela partilha, abraço

  9. Edgar Costa says:

    Obrigado pela visita e óptima viagem até Santiago.
    Espero voltar desta vez através de um percurso alternativo.

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